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Bandido por um dia
07/10/2009 - 11h55m
Começo falando sobre o meu respeito pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. Tenho parente e amigos policiais militares e sei a tarefa árdua que esses profissionais enfrentam diariamente. Mas sei também que muitos policiais (uma parcela pequena, é claro) não honram a farda dessa instituição centenária.
Todos nós já ouvimos, e ainda iremos ouvir estórias absurdas sobre o comportamento inadequado de policiais no cumprimento do dever. Mas, pior do que ouvir e se indignar com isso, é passar momentos desagradáveis nas mãos desses policiais.
Foi nesta segunda, 05, às 13h30 aproximadamente. Eu estava caminhando na Avenida Pompéia, em Perdizes, após um delicioso café da manhã no Fran's Café. Estava de folga. Mas, mesmo assim, com o celular em punho estava registrando flagrantes de desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro, por estar em uma região pouco freqüentada por mim. Na altura do número 1.709, eu passei por uma viatura da PM estacionada em cima da calçada na contramão. Os PMS estavam conversando dentro de uma revenda de automóveis. Como eu estava em local público, me achei no direito de registrar o fato. Ainda mais por ser um repórter de trânsito e possuir um blog de denuncia irregularidades. Sempre falo no blog que o poder público para ter o direito de punir, tem que dar o exemplo. Em caso de emergência, sim, o Código de Trânsito Brasileiro abre uma exceção. Mas, muitos funcionários públicos e até agentes da CET, por que não, banalizam esse tipo de conduta. Ao perceber que a viatura foi fotografada, o 3º Sargento Leovan Dias Santos, de uma maneira não muito amistosa, se aproximou de mim querendo saber do que se tratava. Eu expliquei que possuía um blog de trânsito e que registrava flagrantes pelo celular. Fui informado de que não poderia fazer esse tipo de serviço. Sem desrespeitá-lo o informei que poderia sim, por estar em local público registrando o fato de um agente público. Irritado, pediu os meus documento, o que foi prontamente atendido. Não satisfeito, pediu que eu entregasse o meu celular, o que foi prontamente negado. Claro, meus registros estavam lá, como poderia entregá-los ao policial. Ele tomou a minha atitude como desobediência e mandou outro policial me algemar. Eu comecei a exigir os meus direitos de jornalista, o de trabalhar sem ser ameaçado e intimidado. Mas em nenhum momento reagi ou ofendi a autoridade policial. Apenas dizia que não havia necessidade para tamanha violência. Não admitia agressão por parte dos policiais. Sim, porque para algemar eles aprendem que tem que dar uma chave de braço no meliante antes de apertar a algema (uma forma enrustida de tortura). Um terceiro policial, de bom senso, Nildo Jr., convenceu o sargento a tirar as algemas de mim, o que acabou ocorrendo. Sentindo-me um pouco menos marginal, esperei o superior averiguar o meu documento de identificação. Enquanto isso entregava a minha credencial da Jovem Pan ao Nildo Jr.
Chegaram a me acusar de portar uma falsa credencial, acreditem se quiser. Estava totalmente a mercê deles. Após a consulta, o sargento falou que eu poderia me complicar se fosse levado ao DP, dando a entender que era melhor eu nada publicar e morrer a coisa por lá mesmo. Recusei-me, alegando que não fazia nada de errado e que não temia ser levado ao DP. Neste momento liguei a filmadora do celular e comecei a registrar a negociação. Percebendo minha atitude, o sargento tentou tomar novamente o celular da minha mão. Num gesto instintivo protegi o aparelho e comecei a ligar para a Jovem Pan a fim de relatar o que eu estava passando. Fui informado que eu não teria a direito de ligar, só poderia no DP. Foi-me dado voz de prisão por Desobediência, Desacato e Resistência à prisão. Na verdade, eu não resistia a prisão e sim protegia o celular que continham as provas que me seriam úteis, principalmente o vídeo. Eu queria apresentá-las no DP e não entregá-las ao policial. Fui jogado em um capô de um carro no interior de uma loja pelos três policiais. Mesmo algemado com as mãos pra trás, segurava com força o celular na mão esquerda. Torceram o meu dedinho até conseguirem pegar o aparelho. Estou com o dedo bastante inchado, sem poder dobrá-lo. Apertaram ao máximo a algema e me jogaram dentro do porta-malas adaptado de um veículo Corsa (espaço pequeno e totalmente lacrado, sem ventilação).
Percebendo que eles estavam fora de controle, comecei pedir para alguns motoristas, que observavam a cena no sentido oposto, que ligassem à Jovem Pan e avisassem que o repórter Marcelo Cury estava sendo preso. Temi pela minha vida, justamente por eles não acreditarem que se tratava de um repórter e pela forma de atuação, totalmente violenta! Na hora, era a única coisa que eu poderia fazer. Já ouvi muitos relatos de absurdos cometidos por policiais. Diante do meu pedido aos motoristas o sargento tentou calar a minha boca com as mãos e depois fechou a porta traseira. Fiquei preso debaixo daquele sol em um lugar totalmente inadequado e sem ventilação. E o pior, com as algemas machucando muito o meu pulso. Fui obrigado a implorar para que desapertassem as algemas e deixassem a porta aberta, pois a todo o momento ele falava que eu havia pedido para passar por aquela situação. Estava literalmente sendo torturado! Mais uma vez o soldado Nildo Jr. e o seu bom senso atenderam ao meu pedido. Depois me retiraram do veículo e me colocaram dentro do estabelecimento, encostado em uma parede, como fazem com os criminosos. E continuava algemado. Ficar exposto para todos os que passavam pela avenida foi totalmente humilhante. Depois de quase uma hora, fui levado ao DP, dessa vez no banco de trás. Aleguei que tinha asma, para conseguir esse benefício. Senão, seria atrás mesmo.
Quando chegamos ao 23º DP de Perdizes, desci do carro e as algemas foram tiradas no estacionamento. Ao invés de entrar na delegacia, fomos à base da PM que fica dentro do DP. Fui fotografado por uma policial de frente e perfil e fui chamado ao balcão pelo Sargento Leovan. Ele queria que eu mostrasse as fotos. Só que as fotos já haviam sido apagadas por ele. Mas ele queria ter a certeza de que não havia mais registros. Perguntou-me sobre o vídeo. Eu falei que iria mostrá-lo apenas na presença do delegado. E ele veio com a seguinte frase: "Você não sabe o que eu ainda posso fazer com você. Não complica ainda mais a coisa". Bem, diante disso o que eu poderia fazer. Localizei o vídeo e o deixei assistindo. Isso foi às 14h30 aproximadamente. Fui levado à sala do escrivão Fernando que pediu que eu aguardasse em uma sala que dá acesso à Cela de Custódia. Na parede estava escrito: Mesmo que calem a minha boca, mesmo que atem os meus braços, mesmo que vendem os meus olhos, meu coração gritará por liberdade! Foi um alento naquele momento. O escrivão foi até a sala conversar a sós comigo. Ao perceber que eu havia sido agredido e estava com o dedinho inchado, e os braços feridos, não quis receber a ocorrência. Exigiu que os policiais me levassem ao pronto-socorro imediatamente.
Pedi para dar uma ligação e novamente tive negado pelo sargento esse pedido. Senti-me totalmente impotente. Lá estava eu, novamente na viatura, com os três, só que dessa vez sem algema. O sargento me perguntava a toda hora se eu não iria causar problemas a ele caso eu sem as algemas. O que eu poderia fazer? Chegamos a Santa Casa, no centro. O sargento ficou no carro, um policial na recepção preenchendo a ficha e o soldado Nildo Jr., sempre gentil, me acompanhando. Á partir daí eu passei a não mais me sentir como um bandido. Talvez já tivessem constatado que a minha credencial não era falsa. Vai saber! Esse foi o lado bom da estória. Acompanhado da PM o paciente não pega fila. Foi solicitado um RX do dedinho e eu fui rapidamente medicado pelo Dr. Eduardo Régis de A. Bona Miranda a tomar Algimac (antiinflamatório) de 8 em 8 horas e muito gelo no dedo. Pelo menos não havia quebrado.
De volta à viatura, fui apresentado ao delegado às 15h45, aproximadamente. Fui recebido pelo simpático Dr. João Batista Filogonio. Expliquei por cima o que havia ocorrido e ele pediu para que eu ficasse tranqüilo e não discutisse com os policiais. Disse isso por ter sido informado que eu havia ofendido os PMS. Óbvio que eu não fiz isso. Eles prepararam direitinho o flagrante. Duas testemunhas foram ouvidas, o policial Nildo Jr., o Sargento Leovan e eu. O boletim está na íntegra disponível. Somente às 19h30, aproximadamente, eu fui levado, por outros dois educados policiais, ao IML. O sargento Leovan quem solicitou. No começo da noite ele estava bem mais calmo. No IML eu nem cheguei a ser examinado. O médico, sentado em um computador, me fazia perguntas, eu respondia. Vez ou outra ele dava umas rápidas olhadas, a distância, nos ferimentos que eu relatava, e só. Isso é o famoso Corpo de Delito, diferentemente dos filmes americanos. Após isso consegui finalmente a minha liberdade, por volta das 20h15. Fui liberado pelos policiais, peguei o Metrô Clínicas e voltei pra casa, aliviado e estressado pela terrível experiência passada. Mas, com uma excelente estória pra contar. E mais do que isso: um alerta para mostrar o poder que um policial militar tem de transformar a vida de um cidadão honesto, em uma vida criminosa. É o tipo do trabalho que exige muita responsabilidade. Já ouvi relatos de jovens da periferia que são incriminados apenas por estarem conversando com amigos bandidos enquanto compram pão na padaria. Os policiais na delegacia criam suas estórias muitas vezes para fugirem de uma possível punição por uma conduta inadequada. Eu sei o quanto é duro o trabalho da PM, mas sei também quantas vidas são despedaçadas por policiais irresponsáveis. Eles extrapolam e depois acusam de Desacato, Desobediência e Resistência. Hoje eu posso falar isso. Eu percebi que eles ainda vivem sob a ditadura. Eles falam e você abaixa a cabeça. Se argumentar, é cana!
MARCELO CURY
