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ESSE TIME PODE JOGAR MAIS











Em matéria realizada pelo jornal A Gazeta Esportiva, Wanderley Nogueira mostra que a seleção, apesar da vitória contra o Paraguai, tem que jogar melhor. Em junho de 1985.

(De Wanderley Nogueira, especial para A Gazeta Esportiva) -SANTA CRUZ DE LA SIERRA - A Seleção Brasileira conseguiu dois pontos importantes e agora terá dois dias para corrigir falhas, erros e deficiências antes de enfrentar o selecionado paraguaio, em Assunção. O que ficou da vitória de ontem? Essa análise foi feita por dezenas de jornalistas durante a noite de domingo e a madrugada de segunda-feira. Não houve vôo e boa parte dos jornalistas e radialistas só poderá viajar hoje para o Brasil. O tráfego aéreo de Santa Cruz de La Sierra pode ser considerado intenso. Como intensas foram as horas de discussão, sobre as possibilidades do atual time do Brasil. E as opiniões foram unânimes: o time de Telê Santana tem condições de crescer muito, mostrar um futebol entusiasmante, algo que agrade aos torcedores brasileiros. E esse "detalhe" é o mais importante de tudo, afinal os dias foram poucos e os treinamentos não foram suficientes, mas o nível técnico de cada jogador permite a todos crer que o volume de futebol apresentado irá aumentar sensivelmente. O potencial dos jogadores que estiveram em ação no último domingo é conhecido e respeitado.

Infelizmente, todos chegaram a conclusão que se o time fosse "o do Evaristo" não teria conseguido derrotar os bolivianos. Essa opinião foi ratificada pelo tempo de treinamentos em que o time esteve nas mãos de Evaristo de Macedo e pelo futebol que a maioria dos jogadores apresentou. Nada que pudesse provocar esperanças. Bem diferente deste de hoje, que apesar de ter falhado bastante deixa claro que contra o Chile (amistoso) e contra o Paraguai, no dia 16, o futebol será melhor.

Sócrates não foi bem. Jogou mais como armador do que como atacante. Zico ainda sem as suas melhores condições técnicas e físicas, mas com um exagerado desejo de acertar, tende a crescer, Carlos bem, Leandro muito bem. Oscar e Edinho, uma dupla sem problemas. Junior bom na marcação e excelente na recuperação. Cerezo, Zico e Sócrates, discretos, Renato razoável, Casagrande um lutador e Éder é o mais apático do time, pode até perder a posição para o jovem Tato. Até nos treinos, Tato tem demonstrado mais aplicação e não será nenhuma surpresa se Éder for sacado do time contra o Chile. Se tato agradar pode ficar no time contra o Paraguai.
Entretanto, apesar das falhas, do péssimo primeiro tempo, para aqueles que estão acompanhando o selecionado brasileiro ficou nítida e, para nós, correta a impressão de que o time pode subir muito de produção. A classificação é algo dado com assegurado e se esse time continuar a treinar e jogar juntos, poderá, sem dúvida, disputar a final no México. Não é uma euforia exagerada, mas apenas uma previsão natural. Há reais chances do crescimento técnico e isso é primordial.

Apesar de tudo, a imagem do nosso futebol ainda é respeitada
É sempre uma emoção nova sentir o respeito que o mundo tem pelo futebol brasileiro. Mesmo vindo de uma enorme crise gerada pela Seleção de Evaristo de Macedo, o povo boliviano em nenhum momento deixou de admitir que o futebol brasileiro é uma das maiores forças do mundo. Não desacreditaram na sua seleção, mas tinha consciência de que a missão seria muito difícil.

E foi assim desde a chegada do time de Telê Santana a santa Cruz de La Sierra. Faixas em torno do Hotel Los Tajibos e centenas de pessoas em busca de autógrafos. Mas a emoção foi crescendo cada vez mais. Quando Pelé entrou em campo para dar o pontapé inicial do jogo preliminar envolvendo garotos de até 10 anos e um time com o uniforme da Seleção Brasileira, 25 mil pessoas ficaram de pé, aplaudindo o "rei do futebol".

Ele, com os braços erguidos, correndo em torno do campo e sendo saudado pela multidão. Os garotos, emocionados, olhos brilhantes, ficaram observando aquele que continuam reverenciando até hoje. Pelé, sozinho no centro do gramado, e todos nós ficamos com o coração apertado. Até o Pelé, acostumado com as recepções inflamadas, entusiasmantes e carinhosas. Nenhuma vaia, nenhuma contestação: só aplausos. A imagem do futebol brasileiro ainda conserva um nível de admiração na figura de Pelé.

Poucos minutos depois, no estreito túnel que leva ao campo de jogo, os onze jogadores brasileiros que jogariam minutos depois contra os bolivianos, começaram o processo de aquecimento sob a direção de Gilberto Tim. Silêncio no túnel, só as ordens de Tim eram ouvidas. Os jogadores sérios, repletos de responsabilidades e fazendo alongamento, utilizando como suporte as paredes de concreto pintadas de amarelo. Só Zico com uma camisa branca, todos os outros já estavam com a camisa de jogo.

Na ponta do túnel, dezenas de rostos de jornalistas e radialistas bolivianos, observando com atenção os movimentos dos jogadores brasileiros. Um super elenco, na opinião dos bolivianos, se preparando para entrar em cena. Alguns dos maiores jogadores do mundo, diziam eles aos microfones, estavam se preparando para jogar contra o futebol boliviano. Pouca atenção pra a seleção local, e total cobertura dos músculos brasileiros.

E quando a Seleção entrou em campo, as vais e os apupos foram quase imperceptíveis. A maioria aplaudiu. A barulhenta torcida brasileira tomou conta por alguns minutos, até que o selecionado brasileiro entrasse em campo. De qualquer maneira, conquistando títulos ou brigando com a imprensa, o futebol é uma instituição nacional, que deve ser preservada, cuidado com carinho, atenção e profissionalismo. O Brasil não pode correr o risco de perder essa imagem.

Herói e artilheiro. É Casagrande, o filho da dona Zilda.
"Homem extraordinário pelos seus feitos guerreiros, pelo seu valor ou magnitude. Pessoa que por qualquer motivo é o centro das atenções. Protagonista de uma obra literária." Assim o mestre Aurélio Buarque de Holanda define a palavra herói. Herói, que serviu para adjetivar o nome Casagrande em quase todos os jornais brasileiros no dia de ontem.

Certamente, Casagrande foi um dos poucos remanescentes da Seleção de Evaristo de Macedo que ganhou a posição dentro de campo. Os "italianos", pelo futebol considerado mágico não precisariam "brigar" e tinham vaga garantida no time de Telê. Oscar? A seriedade deste jogador fascina a atual treinador. Renato? O único ponta? Nome certo.

Casagrande, porém, conquistou o seu lugar na equipe jogando na meia esquerda do time de Evaristo de Macedo, estava sempre junto, colado no Careca. Mesmo assim, pelo espírito de luta e por ser um autêntico artilheiro, tinha lugar certo. Bastaram duas boas jogadas e lá se foi a Bolívia, a 480 metros do nível do mar, bem longe de La Paz, com toda a certeza, daqui para frente, esta arma anão será desprezada.

"Iremos jogar no topo da Cordilheira" disse um irritado, porém conformado jornalista boliviano, após a partida.

O avião atrasou e dona Zilda - que esperava o Valtinho por volta das 23 horas somente pôde abraçar o herói de todos os brasileiros à 1 hora da manhã:

-- Olha, para falar a verdade, ainda nem deu tempo de conversar com ele. O Valter dormiu até tarde e disse que iria para o Corinthians fazer tratamento. Ele estava muito cansado, não podia ficar muito tempo de pé - explica dona Zilda ontem à tarde.

Mas Casagrande não foi ao Corinthians, onde muitos repórteres aguardavam por ele. As dores no tornozelo diminuíram e ele preferiu tratar de alguns problemas particulares. O que não terá muito tempo para fazer até o final das Eliminatórias, principalmente para quem casa em setembro.

Hoje á noite o centroavante do Brasil se apresenta na Toca da Raposa, juntamente com todos os outros jogadores, muito felizes, mas não tão heróis quanto ele. Ainda mais depois de uma fase em que a seleção tinha apenas vilões.

 

 

WANDERLEY NOGUEIRA

   
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